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Os vizinhos
de Gloria Fowles sabiam exatamente o que ela queria quando a menina
de cinco anos tocava a campainha no meio da tarde, num bairro de
gente simples em Nova Jersey, Estados Unidos, na década de
50. Tenho uma canção para você!,
dizia, sorrindo. Antes de terminar o colégio, já sabia
200 músicas e disse à mãe que queria ser cantora.
Ótimo, querida, mas primeiro arranje um emprego,
ouviu. Gloria fez curso de cosmética e aprendeu a se maquiar
e pentear. A mãe costurou vestidos de festa. Ela não
sabia, mas aos 19 anos já estava pronta para entrar para
a história da música como a rainha disco, eternizada
pelo hino I Will Survive (Eu Vou Sobreviver). Gloria,
54 anos, fez show em São Paulo no sábado 4 e se prepara
para voltar em agosto, sempre na companhia de Linwood Simon, seu
marido e empresário, com quem está casada há
mais de 20 anos. É ele quem lhe serve chá de camomila
com mel antes do show começar.
No
show em São Paulo você cantou três vezes I
Will Survive. Tem idéia de quantas vezes já
cantou essa música na vida?
Gostaria de saber, mas não sei. Milhares! Essa música
tem 23 anos e eu tenho que cantá-la em todos os shows. Amo
cantar essa música, mas não gosto de ouvi-la no rádio.
Gosto de cantá-la porque, nessa hora, sou eu e o público
e há uma troca de amor. Me sinto dando poder e coragem para
quem ouve a música. E o público me dá amor
e agradecimento.
Qual
a diferença de cantar I Will Survive agora e
há vinte anos?
Hoje, quando eu penso nessa canção, penso em Deus.
Há vinte anos, pensava só em mim. Sempre disse às
pessoas que elas tinham de sobreviver, mas nunca disse como. Hoje,
digo que elas vão sobreviver se confiarem em Deus. E não
só sobreviver nesta vida, mas eternamente.
Desde
quando é cristã?
Desde 1982. Sempre acreditei em Deus, mas só dizia que era
cristã porque minha mãe e minha avó eram. Minha
mãe nunca me obrigou a ir à igreja porque foi obrigada
desde pequena pela minha avó. Eu gostaria de ter sido obrigada
porque não teria cometido os erros que cometi.
Que
erros você cometeu?
Nunca teria me envolvido com drogas, álcool e com alguns
homens que passaram pela minha vida. Teria sabido desde o começo
como as pessoas devem se tratar, como uma mulher deve ser. Teria
sabido que a vida é baseada nas minhas escolhas e que posso
ser o que eu quiser. Nunca teria tido as inseguranças que
tive porque Deus me deu talentos maravilhosos. Eu não sabia
disso. Mesmo quando me aplaudiam. Pensava que, se não pudesse
cantar, ninguém ia se importar comigo. Achava que eu era
só uma voz que as pessoas gostavam de ouvir ao dançar,
mas que ninguém se importava com os meus problemas. Porque
eu achava que Gloria Gaynor não era nada, não tinha
nada a oferecer.
Como
se sente agora?
Sei que isso não é verdade. Sei que sou uma ótima
professora. Mais que cantar, eu ensino as pessoas. Não falo
sem ensinar, tenho alma de professora. Esse é o dom que Deus
me deu, além do dom da cosmética. Posso fazer qualquer
uma ficar linda, fazer o cabelo, a maquiagem. E posso ficar horas
ouvindo os problemas dos outros.
Próxima
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