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Cada
vez mais comum nas ruas de São Paulo ou do Rio de Janeiro,
o jipe Troller, vencedor do campeonato mundial de rali em 2001,
parece ter saído de um filme de guerra. Mas a máquina
com quase 4 metros de comprimento vem mesmo é de uma fábrica
na cidade de Horizonte, no interior do Ceará. Isso mesmo,
o jipe é brasileiro até o chassis.
Turbinada
pelo sucesso em competições, a fábrica da Troller
cresceu de 12 para 450 empregados em quatro anos. Ao mesmo tempo
em que se prepara para iniciar o processo de exportações,
a Troller começa a aguçar o apetite das gigantes do
setor automobilístico. Algumas multinacionais já fizeram
propostas milionárias pelo controle da empresa, mas encontraram
uma barreira intransponível. Mário Araripe, 47 anos,
o presidente da Troller, rejeita todas as ofertas. O caminho
foi difícil até aqui, mas queremos chegar ainda mais
longe, afirma Mário.
Num
universo onde grandes empresas tendem a engolir os concorrentes
menores, Mário aposta que a Troller pode se manter em pé.
Quando contei para os engenheiros da empresa que havíamos
ganhado o mundial de rali, muitos deles se emocionaram e começaram
a chorar, conta ele. O empresário viu nessa reação
uma demonstração de força da empresa. Nós
não fazemos só carros. Nós fazemos tecnologia
brasileira e criamos empregos no interior do Nordeste. Esse é
o nosso negócio, afirma.
Nem
o fracasso da Gurgel, a fábrica brasileira de automóveis
que fechou as portas em agosto de 1993, desanima o empresário.
Ele lembra que a Gurgel surgiu antes da abertura às importações
em 1991, e por isso não estava preparada para enfrentar a
concorrência. A Troller já nasceu na selva. Nós
concorremos com Mitsubishi, Nissan e Land Rover e mesmo assim estamos
crescendo. Seremos a Gurgel que deu certo.
Mário
é tão cearense quanto o Jipe que fabrica. Nasceu na
cidade do Crato, no interior do Estado, na época em que seu
pai, Jairo Alencar Araripe, trabalhava na construção
de um açude. Ele era engenheiro do Departamento Nacional
de Obras Contra a Seca e empregava quase todo o salário no
pagamento da escola dos cinco filhos. Meu pai vivia nos incentivando
nos estudos, recorda Mário. Ele estudou no Colégio
Militar de Fortaleza e conseguiu uma vaga no concorrido Instituto
Tecnológico da Aeronáutica (ITA). Fez pós-graduação
em administração na Universidade Federal do Rio de
Janeiro, e mais tarde estudou em Harvard, nos Estados Unidos.
Mário
trabalhou como executivo na indústria têxtil até
montar seu próprio negócio, uma empreiteira que chegou
a ter 2.000 funcionários antes de ser vendida. A idéia
de desenvolver um jipe surgiu em 1997, quando o governo federal
emitiu uma Medida Provisória que incentivava a criação
de empresas no Nordeste. Ele se associou a Rogério Farias,
um amigo que já havia construído mais de sete mil
buggies, e começaram a trabalhar.
Atualmente,
ele comanda vários empreendimentos no Ceará e na Bahia
com um faturamento próximo de R$ 250 milhões, anualmente.
Mas não esqueceu a lição que recebeu de seu
pai sobre a importância dos estudos. Casado com Mônica
há 23 anos, ele não olha o canhoto do cheque quando
a educação dos quatro filhos do casal está
em jogo. Virna, 20 anos, e Tasso, 19, estudam em universidades norte-americanas
enquanto Lucas, 16, e Lara, 15, se preparam para trilhar o mesmo
caminho. Meu pai me deu a chance de estudar no melhor colégio
da cidade. Eu posso ir um pouco mais longe.
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