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Em 1980, o filósofo francês Louis Althusser estrangulou
Hélène, mulher com quem convivera por trinta anos.
Quarenta anos atrás, Norman Mailer, revelação
da prosa americana do pós-guerra, chegou tarde de uma festa
e esfaqueou a esposa. Um terceiro episódio ocorreu há
dois anos, quando o jornalista Antonio Pimenta Neves assassinou
a ex-namorada, Sandra Gomide. Inspirado na história de Pimenta,
O Vôo da Rainha (Objetiva, 280 págs. R$ 27,90),
mais recente livro do argentino Tomás Eloy Martinez, elabora
uma questão comum a todos esses casos: até que ponto
uma vida dedicada à razão é incompatível
com atos do mais puro irracionalismo?
Há insondáveis mecanismos no caminho que leva da sanidade
à loucura. Mas um papel razoável pode ser desempenhado
pela soberba, vício que serve de mote para a obra. Sétimo
livro da bem-sucedida série Plenos Pecados, O
Vôo da Rainha relata a paixão obsessiva de um diretor
de jornal, Gregorio Magno Camargo, por uma repórter, também
argentina, chamada Reina (rainha, em espanhol) Remis. À medida
que a relação se complica, Camargo é consumido
pela própria arrogância.
Há
um capítulo inteiro dedicado ao caso Pimenta. O jornalista
brasileiro aparece como amigo do protagonista e confere à
leitura uma estranha sensação de familiaridade. Não
se trata de uma investigação jornalística,
mas de uma forma particular de mistura entre o real e o imaginário.
Ao manter a prosa numa zona de penumbra entre os dois pólos,
Eloy Martinez leva para o campo da forma seu tema principal e mostra
por que é um autor de primeira linha. Entre fatos e imaginação
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