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Exatamente
como há 16 anos, quando Rita Camata entrou em casa e comunicou
ao marido que era candidata, o senador Gerson Camata ouviu pela
segunda vez, na semana passada, a mesma frase, acrescida de apenas
uma palavra: Sou candidata a vice!. Gerson sentiu o
mesmo desgosto de antes. Queria que ela ficasse cuidando das
crianças, diz ele às voltas com o choramingo
de Bruno, de um ano e 9 meses, e com a preocupação
natural do pai que tem uma filha, Enza, adolescente de 14 anos.
Até sexta-feira ele só se alimentou da comida
feita pela mãe, lamenta ele, prevendo seu futuro de
dono-de-casa. Mas a culpa foi dele mesmo.
Há
20 anos, quando conheceu Rita na porta da escola onde ela dava aulas
para uma turma de jardim de infância, o então deputado
federal, que articulava sua candidatura ao governo do Espírito
Santo, já tinha decidido que ela seria a sua primeira-dama.
Mas Rita, 20 anos, de beleza exuberante, ex-Miss Simpatia e ex-Rainha
dos Estudantes, estava mais interessada em seguir a carreira de
modelo. Era, portanto, pouco preparada para assumir o cargo. O futuro
noivo então cuidou de passar-lhe ensinamentos. Enquanto namorava,
levava livros para que Rita ganhasse mais cultura e assim pudesse
circular com desenvoltura nas rodas políticas. O primeiro
foi Os Irmãos Karamazov, do russo Fiodor Dostoiévisky.
Seguiram-se outros clássicos da literatura mundial, e a bela,
apaixonada, mostrou ali o que seria uma marca de sua vida pública,
a determinação. Discutíamos todos os
livros, lembra Gerson.
Rita
se tornou a primeira-dama mais nova do País, formou-se em
jornalismo enquanto cuidava da parte assistencial do governo e chegou
a ensaiar a carreira fazendo entrevistas com os políticos
que visitavam o marido. Era uma primeira-dama ciumenta e brava.
Certa vez, quando o governador precisou passar uma noite em São
Paulo e não conseguiu avisá-la, ela protagonizou uma
situação hilária. Na manhã do dia seguinte,
de volta a Vitória, Gerson Camata foi direto inaugurar uma
central telefônica. Na cerimônia, a primeira ligação
seria a dele e a conversa, ouvida em praça pública.
O governador pediu então que telefonassem para a mulher.
Na linha, antes de ouvir qualquer explicação, Rita
esbravejou ao ouvir o alô do marido: Onde você
tava, vagabundo?, gritou ela ao telefone, tendo sua voz reproduzida
pelo alto-falante instalado no local, para o constrangimento do
então governador.
Como
jornalista, ela não foi longe. Em compensação,
se encantou com a vida política. Passou a freqüentar
as reuniões do PMDB local, meteu-se em articulações
complicadas e por fim deixou o marido-professor estatelado quando
avisou que seria candidata a deputada federal. Como agora,
eu não tive o que dizer. As coisas já tinham acontecido,
revela o senador.
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Há
pouco mais de um ano e meio, com o filho Bruno, o marido e
a filha Enza, de 14 anos
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Hoje,
aos 41 anos, quatro mandatos de deputada federal, sempre a mais
votada no Estado, Rita Camata fala com tranqüilidade sobre
sua beleza. Não é demérito ser bonita,
não é porque é bonita que é incompetente,
responde. Bem diferente da insegura jovem de 26 anos que chegou
ao Congresso Nacional rejeitando o título de Musa da Constituinte.
Eu queria ser vista pelo meu trabalho e não pela beleza,
dizia sempre. E conseguiu. Caiu nas graças do deputado Ulysses
Guimarães, mestre que lhe ensinou outras mazelas da política.
Na Constituinte apresentou 200 projetos de lei, dos quais 68 foram
aprovados, está em quinto lugar no ranking dos deputados
que mais aprovaram projetos e presidiu a frente parlamentar da infância,
quando elaborou o Estatuto do Menor. Foi, por isso, a única
parlamentar brasileira a ganhar o prêmio Criança e
Paz do Unicef.
A
Rita é admirável, esforçada e lutadora,
elogia o marido. De fato. Rita de Cássia Paste Camata é
filha de lavradores descendentes de italianos. Passou a infância
ao lado dos nove irmãos colhendo café na propriedade
da família em Venda Nova do Imigrante, interior do Espírito
Santo. Ganhou esse nome por uma promessa da mãe que viu a
primeira gêmea, Mônica, sair da barriga e sofreu com
a segunda que não aparecia. Na dor, rezou e pediu ajuda a
Santa Rita de Cássia. Devota da mesma santa, Rita vai todos
os domingos à missa. Quando viu seu nome cogitado para compor
a chapa do candidato José Serra, disse: Vou ficar no
meu canto, quieta, sem falar com ninguém. Que vença
a vontade de Deus. Deus quis, e Rita aceitou o convite.
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