 |
Clarice Lispector: cartas sobre problemas no casamento e planos para livros |
“Não me passe carão: mas na segunda-feira de carnaval fomos a uma festa na casa do cônsul americano e eu tomei um bom pileque. Eu digo que não me passe carão porque o dia seguinte já me passou. Puxa! Que enjôo. Uma dessas ressacas de filme de cinema. Foi bom que eu tivesse bebido para tirar o que existe de tentador na idéia, tão divulgada e cantada pelos poetas... Foi a primeira vez e a última, não há dúvida.”
“Me sinto como uma pessoa que se não fizer alguma coisa que a reabilite, se afoga. Para não ser tão humilhada e pisada eu procuro me interessar por homens e isso até me cansa, me desvia do meu trabalho que é a coisa mais verdadeira e possível que eu tenho. O resto é sensibilidade ferida, é insatisfação, é absoluta insegurança quanto ao futuro, é incompreensão do presente, é indecisão quanto aos próprios sentimentos.”
“Não tenho lido muito; ando ocupada com o hospital e com a dispersão de minha vida. Fiz ondulação permanente e pareço um carneiro. Como se vê, a História realmente se repete. Estou às voltas com óleos e raivas, sendo que nenhum dos dois alisa meu cabelo. O tempo se encarregará de amainar a fúria onduladora do cabeleireiro.”
“A casa de chá é muito bonitinha, com gente honesta comendo doce. O que se chama de ‘mal freqüentada’ é que não é freqüentada pelos diplomatas e finuras da sociedade bernense. Então eu fecho a boca para não dizer que continuo a freqüentar.”
“Essa história de roupa minha é bem um sintoma de necessidade permanente de proteção, e de necessidade de ser mandada – e, quando sou mandada, me sinto mal e revoltada..., esquecendo de que sou eu mesma quem cria a situação de ser mandada. Que complicação! O vestido é muito bonito, branco, e tão justo e ‘sexy’ que até pareço uma coisa que não sou, ou que, pelo menos, não pretendo ser...” |