PESSOAS que viram a morte de perto costumam comentar sobre o quanto a proximidade do fim transformou seus hábitos e o modo de encarar a vida. O oncologista Drauzio Varella quase morreu da febre amarela que contraiu em viagem à Amazônia, em 2004, mas seu relato em O Médico Doente (Companhia das Letras, 136 págs., R$ 31) nada tem de melodramático ou existencialista.
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Drauzio Varella: clareza de estilo e de pensamento |
Varella é quase cínico no modo como descreve o período de internação, tamanha é sua objetividade. Mas é essa clareza, de estilo e pensamento, que torna um prazer compartilhar dos momentos em que o médico tornou-se paciente.
Autor dos sucessos Estação Carandiru e Por um Fio, Varella descreve os sintomas com precisão cirúrgica: os tremores advindos da febre, o sono, a dor lancinante nas costas, os vômitos, a falta de apetite, as idéias desconexas. O boletim médico ainda retoma a trajetória da doença, desde sua origem africana. É nos lampejos mais íntimos, porém, que ele ganha o leitor. As lembranças da morte da mãe, quando tinha 4 anos, a rispidez da madrasta, as aulas da religião que hoje não segue. Varella analisa com certo humor a inversão de papéis no hospital, embora revele ter sido tomado pelo desespero diante da expressão de colegas. “O interessante é o que você decifra pelo que não é falado”, escreve. Afirma não ter mudado com o que passou, mas o simples fato de o livro existir é sinal de que há mais a digerir do que ele próprio admite.
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