 |
Asne Seierstad: relato objetivo sobre os conflitos na Chechênia |
EM 1994, a jornalista norueguesa Asne Seierstad tinha 24 anos e dava os primeiros passos na profissão como correspondente de um jornal na Rússia. Ela quis conferir com os próprios olhos o conflito que acabara de estourar na Chechênia e o que viu foi tão chocante que redefiniu sua carreira. Asne seguiu para os fronts de Kosovo, Afeganistão e Iraque, e registrou as experiências nos romances De Costas para o Mundo, O Livreiro de Cabul (seu best-seller) e 101 Dias em Bagdá. Agora autora renomada, ela retorna aonde tudo começou. Crianças de Grozni (Record, 448 págs., R$ 49) é o retrato não só da desoladora situação dos que perderam os pais na guerra civil, mas do permanente estado de tensão e medo provocado pelo atual presidente checheno Ramzan Kadirov.
O relato é objetivo. A emoção brota das dramáticas histórias reais de crianças que nasceram nos anos 90 e hoje são adolescentes. Asne é perspicaz e investiga o efeito do confronto, como ele traz o melhor, ou o pior, de cada um. Ela própria surge como personagem e conta, por exemplo, o pavor que sentiu quando um soldado ameaçou levá-la para um “interrogatório” na floresta. A entrevista com o presidente Kadirov é um ponto alto do livro. Revela o fanatismo do líder islâmico e o preconceito contra as mulheres. Embora imprima sua visão ocidental nas conversas com os locais, a escritora mantém a isenção na narrativa. Deixa que a voz do sofrimento e da intolerância fale por si. Suzana Uchôa Itiberê