



"TALVEZ SEJA A ESPESSURA desse céu que faz os cacimbeiros sonharem tanto", divaga, a certa altura da trama, o narrador de Venenos de Deus, Remédios do Diabo (Companhia das Letras, 188 págs., R$ 38), mais recente romance do moçambicano Mia Couto. Um dos mais férteis e talentosos escritores contemporâneos da língua portuguesa, Couto continua a aprimorar sua prosa inventiva inundada de poesia. Nada é o que parece ser no universo anuviado da Vila Cacimba, para onde parte o médico português Sidónio Rosa em busca de Deolinda, a formosa mulata pela qual caíra de encantos em Lisboa. Diante do sumiço da moça, e sob o pretexto de curar o povoado de uma epidemia, ele estica sua jornada no vilarejo remoto de Moçambique e passa a conviver com figuras como Dona Munda, a semiviúva que vive o luto antecipado do marido moribundo e mantém a casa sempre obscura para não ser pega de surpresa quando a morte enfim arrebatar o companheiro. Se o ritmo carece da intensidade de Terra Sonâmbula, a obra-prima do escritor, a técnica de narrativa para descrever os anseios e amarguras dos personagens está mais afiada do que nunca, assim como o jogo de prender a atenção do leitor pela dúvida. Ao espalhar pistas falsas por todos os lados, Couto explora com maestria a oralidade africana, num ambiente em que a verdade importa tanto quanto as versões. Jonas Furtado
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Mia Couto é um fértil autor contemporâneo em língua portuguesa |