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Teatro
"Eu
sou a maioria"
Denise
Stoklos volta a apresentar o espetáculo solo Vozes Dissonantes,
que foi concebido por conta dos 500 anos do Descobrimento do Brasil,
sai da concha e diz que quer se fazer mais presente na mídia de
seu próprio País para passar o seu recado
Carla
França
| Fotos:
Divulgação |
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| Denise
em cena |
Vozes
Dissonantes estreou em 17 de março de 2000, em Salvador,
BA. Passou rapidamente por algumas cidades do País, incluindo
São Paulo, para depois ganhar o mundo. Agora, antes da performer
Denise Stoklos partir para Havana, Cuba, em maio, o espetáculo
volta em curta temporada, de 12 de janeiro a 8 de fevereiro, no
Teatro Crowne Plaza, em São Paulo.
Vozes,
que foi concebido especialmente para as comemorações
dos 500 anos do Descobrimento do Brasil, mostra a indignação
dos brasileiros contra as injustiças e o sistema vigente.
"Eu sou a maioria", brada Denise, uma anarquista que não
se engaja de forma previsível. "Nunca participei de
partido político, grêmio estudantil e, quando era nova
só fazia volume nas passeatas", diz.
Mais
uma vez, a artista se vale das técnicas do seu "teatro
essencial", cujo objetivo é exaltar o poder do corpo,
da voz, da mente e da intuição do ator para mandar
o seu recado. Insatisfeita, ela propõe no palco a união
dos cidadãos para a criação de uma sociedade
mais evoluída. Ela prega a universalidade, o amor e a liberdade.
Utopia? Para Denise é uma questão de ideologia.
E
foi para se sentir livre que Denise pautou sua trajetória
artística, sempre coerente com seus ideais. Formada em Sociologia
e Jornalismo, Denise tornou-se escritora, atriz, mímica,
coreógrafa, diretora etc etc etc. Tantos atributos foi a
forma que encontrou para ser a dona do próprio nariz. "Mas
sou péssima dona de casa", brinca.
Maturidade
- São 50 anos de vida, 30 de ofício. Depois de
interpretar Louise Boujart, uma mulher de 89 anos que transformou
seu diário de uma vida em arte, ela se diz mais madura e
benevolente. "Chega uma hora que você não pode
ter mais algumas dúvidas" continua. Agora, decidiu sair
da concha. Daqui para frente, pretende divulgar mais o seu trabalho
no Brasil. Sim, porque não é exagero afirmar que Denise
é a atriz brasileira mais conhecida e respeitada no mundo.
Mas em um país dominado pela indústria cultural, que,
cada vez mais, se acostuma com a profusão de celebridades
instântaneas e marqueteiros de plantão, a arte de Denise
soa alternativa, elitista. Ela, mais uma vez, discorda. "Eu
me dirijo para um público que busca evolução,
que se questiona como eu, que é a maioria do povo brasileiro",
diz a atriz.
Denise
já se apresentou em 31 países, em 7 idiomas. Quase
que invariavelmente, as estréias de seus espetáculos
ocorrem no badalado La Mama, em Nova York. E mais, coleciona prêmios
nacionais e internacionais, placas em teatros e teses de estudos,
até mesmo na New York University. Passa mais tempo, uns 60%
dele, pelo menos, encenando pelo mundo. Responsável por uma
dissertação sobre o trabalho da atriz, o amigo de
longa data e seu assistente de direção Wilson Loria
fala com propriedade de Denise. "Ela não precisa de
parafernália, purpurina e adereços para se fazer entender
e é tão clara", repete inúmeras vezes.
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| Denise
exercitando o seu teatro essencial |
Família
- Nascida em Irati, no interior do Paraná, essa filha
de imigrantes ucranianos que se formou em um colégio de freiras
diz que nunca soube se era rica ou pobre. "Nunca me faltou
nada do que precisava. Quando queria alguma coisa, tipo um joguinho
de química, meu pai me dava", afirma. Ela credita ao
pai a visão que tem da humanidade. "Não fui criada
com valores pequeno-burgueses. Minha família sempre foi muito
unida, lutadora, e meu pai era um grande humanista."
Sua
marca registrada, o cabelo desregrado, denuncia uma rebeldia madura,
independente. Denise diz que a raiz escura é uma homenagem
ao filho e, as pontas claras, à filha. A decisão de
adotar o visual surgiu de sopetão. Estava num avião
amamentando o filho, muito loiro, quando alguém lhe disse
que não se parecia com o menino. Foi o estopim para a morena
Denise tomar a decisão.
Aliás,
a maternidade foi o primeiro e fundamental divisor de águas
da vida da então socióloga e jornalista. Primeiro,
a chegada do senhor guri, Piatã, a afastatou de qualquer
possibilidade artística para, depois, incitar uma criatividade
sem limites para as diversas formas de expressões desenvolvidas
a posteriori. Podia muito bem ter enveredado para os meios de comunicação
eletrônicos. Chegou a atuar em uma novela, Ninho da Serpente
(TV Bandeirantes/1982). "Foi uma experiência ótima
para saber como é e nunca mais fazer", diz. Não
é uma questão de abominar, mas ela não faz
questão de qualquer elo com esse tipo de veículo.
"O teatro será a única forma de expressão
cultural ao vivo, não virtual", diz a defensora.
A única concessão é uma espécie de making
of de seus espetáculos, que caberá a sua filha, Thais.
E é por isso que para se deleitar com as metáforas
dessa estrela única vale a pena provar Vozes Dissonantes.
Logo, antes que ela se meta em um avião e demore para aparecer
por aqui novamente.
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